Enfim, o Governo Temer “bomba”. Bomba de gás.

bomba

POR · 29/11/2016

É deprimente que o Brasil esteja vivendo uma escalada de violência política.

Deprimente, mas facilmente explicável.

Hoje, sem motivos, uma tropa de choque avançou sobre milhares de manifestantes que se reuniram em frente ao Congresso,  contra a PEC, ex-241 e agora 55, que a máquina mortífera do Governo irá aprovar, esta sem as dificuldades que se enfrentou no caso de anistia ao Caixa 2.

Natural que suas excelências achem esta importante e desprezível o quanto se vai investir em Saúde e Educação, em Assistência e Previdência Social.

Na confusão que se seguiu ao raid do choque, estabeleceu-se a confusão e tem sempre um grupo de imbecis para, na confusão, partir para depredação que só serve à propaganda da direita.

Vivemos um processo – tristemente iniciado em 2013, em que manifestações que sempre foram pacíficas quando lideradas por partidos, sindicatos e associações, passaram a deixar que grupelhos participassem de atos agressivos, iniciando um processo que começou com black bloc e terminou com coxinhas – de desorganização social e política.

O que aconteceu em Brasília vai se espalhar pelos Estados, como já acontece no Rio de Janeiro e ameaça ocorrer em Porto Alegre, porque não apenas estão quebrados pela queda das receitas como, com a corda no pescoço, vão ter de replicar a dose para cavalo do remédio adotado por Temer.

Quando a economia e as políticas sociais  não “bombam”, num país carente como o nosso, o Governo joga bomba.

Porque o regime  de exclusão, no Brasil, tornou-se insustentável numa sociedade de massas – desorganizadas, mas massas – senão pela força.

E pela ditadura, da qual, infelizmente, cada vez estamos mais perto.

PS. Temer, essa voz das ruas – diferente das que você ouve pela mídia – vira um rugido, viu?

Anúncios

Fidel, por Eduardo Galeano

img_0695-600x400Assim Eduardo Galeano se referiu a Fidel no livro Espelhos, uma verdade quase universal:

E seus inimigos não dizem que apesar de todos os pesares, das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.

E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo.

E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes.

E nisso seus inimigos têm razão.

Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.

E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.

E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia a la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar.

E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha.

(Do livro “Espelhos, uma história quase universal”)

Tradução: Eric Nepomunceno.

Publicado originalmente no diário universal.

Gabriel Nascimento: Qual a cor da ciência?

Por Gabriel Nascimento*

Na adolescência Gabriel deu uma ajuda voluntária à professora Celinha na pré-escola, escreveu uns poemas e tomou gosto pelo professorar. Na verdade, e diga-se de passagem, Gabriel ia também ser amigo da escola para comer a merenda no recreio, mas não vem ao caso mencionar aqui esses motivos todos.

Fato é que ele chegou à universidade, num curso de licenciatura e se tornou professor. Foi lá também que conheceu a ciência. Conheceu, para não mais esquecer, sob a batuta de uma preta, a doutora pela Universidade Alcalá de Henares, Maria D’ajuda, tudo sobre ciência.

O que Gabriel pensava ser ciência? Uma série de gente branca, presa num laboratório fazendo pesquisa experimental. Era o que ele via no Fantástico e no Globo Repórter da TV Globo. Ele viu aquilo a vida toda. Mas a ciência que veria dali em diante não era nada igual o que passava na telinha.

Maria D’Ajuda era muito exigente e criteriosa, publicava muito em periódicos e tinha relação com meio mundo das sociedades científicas. Era uma das únicas pesquisadoras negras daquela universidade a ser doutora. Ela nunca falou de racismo explicitamente ou do racismo que sofreu na Espanha, mas aquilo foi sendo arrancado pouco a pouco.

Competente, profissional dedicada, ela e Gabriel choraram juntos muitas vezes descobrindo como a vida consegue juntar dois negros numa universidade que no passado pertencia à elite cacaueira. (Parêntesis importante: Uma amiga negra dia desses me contou que foi esperar a ex-ministra negra Nilma Lino num aeroporto e ficou apreensiva porque não portava nenhum papel identificando que ela era a pessoa que esperava a ex-ministra. Ao sair do embarque, sem conhecê-la, a ex-ministra foi ao seu encontro, única negra ali, e lhe abraçou, dizendo: “Pra a gente se ver, a gente só precisa se enxergar”).

A professora Maria D’Ajuda, a que enxergou Gabriel, era uma grande cientista e Gabriel queria ser que nem ela. Consta que ela o ajudou até demais: presentes, dinheiro para ir a congresso e uma bolsa de iniciação científica do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da universidade.

Foi ali que Gabriel descobriu de verdade a ciência e pelas mãos de sua igual. Foi ali que Gabriel descobriu que a ciência não tem uma cor só, a dos brancos presos pesquisando em seus laboratórios de pesquisa experimental, mas tem várias cores e a sua cor também ia embelezar a ciência.

No início nem consta que soubesse que a pós-graduação poderia ser seu futuro até conhecer aquela pesquisadora negra. Dali em diante foi um pulo para querer sair publicando em periódicos, resumos e artigos completos em eventos técnico-científicos. Dali foi um pulo para sua entrada na pós-graduação.

Foi dali que Gabriel partiu para refletir a cor da ciência. Os objetos científicos majoritários, ainda acomodados e conformados pelo positivismo, pela racionalidade técnica e pelo angloeurocentrismo, ainda são brancos, mas não precisam ser a vida toda. E não poderão ser com a luta que se firma dia após dia.

A superação do racismo não é um desafio para a sociedade em geral só no sentido de combater a discriminação (sua forma manifesta), mas todos os seus elementos em geral. Uma forma de racismo preponderante na ciência é o racismo epistêmico ou científico.

No Brasil ele é representado pela teorização do brasileiro cordial, passando por Gilberto Freyre, e sua ideia de harmonia no cruzamento das raças, e por Sérgio Buarque no seu brasileiro cordial. O racismo no Brasil adquire essa faceta cordial e a identidade do povo brasileiro, 52% de negros (pardos e pretos) segundo o último censo geográfico do IBGE, vai sendo subrepresentada, ora pela teoria do brasileiro cordial, negando o racismo e narrando uma suposta democracia racial, ora pela ideia falsamente maculada de miscigenação do povo brasileiro, desde Gilberto Freyre, e interpretada como identidade una.

A intelectualidade branca, disfarçando um cânone branco, ainda tentou por vezes chamar nossa identidade de bricolage ou pastiche como gêneros, tentando usar palavras bonitas para tratar a mistura do povo brasileiro rumo ao embranquecimento.

O “nem brancos nem negros, todos somos humanos” e o “você não é negra, é morena” são filhos desse movimento. São séculos de brancos intelectuais falando por negros no Brasil e, não que estivessem mal intencionados, chegou a hora de negros falarem por negros. Vozes como Clóvis Moura, Milton Santos e tantas pesquisadoras e pesquisadores negros e negras vieram para dar um basta nessa forma de subrepresentação.

A cor da ciência está mudando. Em mais de uma década de governos populares de Lula e Dilma, a ciência vem tomando outras cores. Pretos e pretas olham para a ciência com outros olhares e questionam cada vez mais a própria ciência.

O habitat natural do cientista não é mais só o laboratório ou a universidade, é a vida, onde a teoria passa a existir nas e das práticas, quebrando pouco a pouco a branca epistemologia ocidental que vem promovendo o maior genocídio cultural da história: o silenciamento. A nossa voz, rouca, firme e contundente brota e não quer mais calar e é o cientista que conta que Gabriel, que queria ser empresário para ajudar tia Dene, vem aprendendo a ler de verdade, tia Dene, vem aprendendo a ler a vida.

*Doutorando em Letras pela USP, mestre em Linguística Aplicada pela UnB, secretário geral da ANPG.

Dilma corrige GloboNews: Cabral apoiou Aécio

09fef34a16d364a1c2b42a73772e14759d716d13A partidarização está destruindo de vez a já pouca credibilidade que ainda resta à TV Globo – seja na tevê aberta ou por assinatura. Na sua longa, enfadonha e espalhafatosa programação sobre a prisão do ex-governador do Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (17), a GloboNews tratou Sergio Cabral como “aliado” de Dilma Rousseff. A informação falsa não é gratuita. Ela visa jogar a população, revoltada com o quadro caótico no Estado, contra a presidenta que foi afastada pelo “golpe dos corruptos”. Ao mesmo tempo, a emissora a cabo evitou realçar que o Sergio Cabral pertence ao mesmo partido do Judas Michel Temer, o PMDB. A Globo também nada falou sobre os contratos milionários e sem qualquer transparência que sempre manteve com as gestões peemedebistas do Rio de Janeiro.

Diante de mais esta manipulação, a assessoria de imprensa da presidenta Dilma divulgou nesta tarde a nota de esclarecimento, que reproduzo abaixo:

Nota à imprensa

Diferentemente do que informa a Globonews, ao longo de sua programação nesta quinta-feira, 17 de novembro, a respeito da “aliança” entre o ex-governador Sérgio Cabral Filho e Dilma Rousseff, a assessoria de imprensa da ex-presidenta esclarece:

1. Sérgio Cabral Filho jamais foi aliado da ex-presidenta da República. Tanto é verdade que, nas eleições presidenciais, ele fez campanha para o principal adversário de Dilma nas eleições de 2014: o senador Aécio Neves (PSDB-MG).

2. Durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Sérgio Cabral orientou seus liderados no PMDB a votarem favoravelmente ao afastamento dela da Presidência da República.

3. Estes são os fatos.

Assessoria de Imprensa de Dilma Rousseff

Por: Altamiro Borges

Procuradores da lava jato não querem ser punidos por eventuais desvios

Calma, doutores, eu não os chamei de “foras da lei”, de bandidos. Está no singular, reparem.

Disse só o que está em O Globo, ao noticiar que os procuradores da República da tal Força Tarefa da Lava Jato querem ficar fora da lei que disciplinaria os crimes de abuso de autoridade.

Agora ficou mais compreensível o absoluto silêncio com que o ministro Luis Roberto Barroso respondeu à pergunta da Folha sobre se “um agente público à frente de uma grande operação não tem [teria] responsabilidade redobrada”.

Então um promotor pode acusar alguém de um fato gravíssimo, apresentar um powerpoint chamando alguém de “chefe da propinocracia”, isso sair como manchete nos jornais, ser exibido nas redes de TV e, não tendo provas para sustentar tais convicções” sair disso só (e se tanto) com um “aê, foi mal“?

Quer dizer que um juiz pode mandar divulgar escutas telefônicas que não tinha autoridade para fazer, feitas fora do prazo que havia autorizado, despejá-las na mídia, provocar decisões judiciais inspiradas por seu impacto, convulsionar o país e depois ouvir só um “ai,ai,ai” e ficar tudo por isso mesmo, com seus pares dizendo que “ele é especial”?

A comparação com “Os intocáveis” é inevitável, como é inevitável a conclusão de que se deseja que não se deva aplicar a eles a mesma lei dos mortais.

A esculpa de que juízes e procuradores “poderiam se sentir constrangidos em levar adiante apuração de crimes complexos, especialmente quando estivesse diante de investigados poderosos”, francamente, é uma bofetada na cara de ambos. Ou, neste caso, um autoesbofeteamento.

Ou será que isto vem de experiências como aquela dos promotores e juízes que enfrentavam o poder político e econômico em outras épocas e viam suas ações anuladas, suas decisões revertidas e suas carreiras lançadas à Sibéria?

Convenhamos, contra um certo tipo de acusados, ocorreu o contrário.

Vieram os holofotes, as capas de revista, as fotos posadas, os prêmios e os aplausos fáceis da turma do “matem e esfolem estes desgraçados”.

O abuso de autoridade é como os super-salários no Judiciário. Ninguém os controla, todos encontram filigranas jurídicas e  até justificativas esdrúxulas, como aquela dos ternos de Miami, feita por um desembargador paulista.

Querem consagrar uma lei que não é para todos. E que faz, em relação a vocês mesmo, iguais às figuras odiosas que acham que a lei não se aplica a eles.

Os intocáveis.